segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Medrar - Pai Horácio

Já viram essa maravilha de produção de alunos, ex- alunos da UFSCar-Sorocaba e artistas independentes da região de Sorocaba que é o novo videoclip da banda Medrar? 

Além de trazer imagens que questionam gênero e sexualidade a direção e o roteiro são de autoria de um dos fundadores do nosso coletivo Mandala, o Rafael Romão, vulgo, Tuca.





Parabéns a todxs as(os) envolvidxs!

#medrar #cultura #ouçaMúsicaIndependente #Tuca #Mandala#HérculesEJoãoLindos #dragqueen #arte #videoclip #paiHorácio


Ficha-técninca videoclip Pai Horácio 1: 


Argumento/edição:Rafael Romão


Fotografia: May Manão


Atores: Hércules e João Goulart


Agradecimentos: Coletivo Cê, Breja, Xennya, Guerreiro, Nick, Mari, Fran.

Curta Medrar em: https://www.facebook.com/medrartudo

Ficha-técnica videoclip Pai Horácio 2:
Direção: Rafael Romão e May Manão
Roteiro: Rafael Romão
Direção de Fotografia: May Manão
Ass. de Fotografia: Sylvio Quack Guerreiro, Nicolas Castro e Jenny Justino
Edição: May Manão
Produção: Mya Machado, Mariana Rossi e May Manão.
Ass. de Produção: Amanda Morettini
Still: Fran Rockita
Atores: João Goulart e Hércules Soares.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Relato #2- Descoberta.

       O Coletivo MANDALA continua a publicação de relatos de pessoas LGBT sobre suas vivências e experiências. Para hoje o relato de número #2.

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                                                               DESCOBERTA

      Foi um processo complexo e acredito rico descobrir-me gay. Desde criança (a partir de uns 5 anos) os outros meninos me chamavam muito a atenção. Claro, desde essa idade não nomeava meu sentimento com a definição “gay”, porém simplesmente sabia que algo de diferente acontecia comigo. Era curioso como qualquer referência ou provocação de um colega ou membro familiar sobre ter uma namorada me deixava profundamente irritado, mesmo que aos poucos aqueles discursos me fizessem acreditar que eu teria a obrigação de ter uma no futuro.
     Comecei a dar nome a tudo o que sentia durante a infância. Escutava as pessoas ao meu redor falando coisas como “viado”,”bicha” e um dia resolvi perguntar a minha mãe(que possuía todas as respostas as questões da vida até então) o que significavam essas palavras. Ela foi certeira “é homem que gosta de homem, filho” -falando com um pouco de receio- pensei comigo em silêncio “este sou eu!”. Aí começaram uma série de questionamentos, pois este “sou eu!” veio acompanhado de uma carga de vergonha e culpa... na época frequentava a Igreja Católica e lá apesar de aprender o tal do amor ao próximo percebi que esse próximo só valia para aqueles que pensavam, sentiam e viam o mundo da maneira ali ensinada (pelo menos foi essa a interpretação que tive naquele momento)...infelizmente não foi um lugar acolhedor, principalmente se tratando de uma comunidade de um pequeno bairro em formação até então.  
      Minha perspectiva começou a mudar numa noite assistindo ao canal MTV (isso com uns 10 anos) em algum daqueles programas nos moldes em que as pessoas ligavam e pediam uma música. Alguém pediu “viðrar vel til loftárása” do grupo Islandês Sigur Rós < https://www.youtube.com/watch?v=akYuy2FMQk4 > .O clipe mostra a relação entre dois meninos de uns 10 ou 11 anos (a mesma idade com que vi o clipe), com direito a um beijo (spoiler do clipe rs)! Lembro-me do coração disparar e da satisfação que foi ver-se representado de alguma forma; foi a primeira vez que percebi que não era o único que passava pela situação, fato me deixou extremamente feliz. Como nunca iria conseguir lembrar o nome da música (de um grupo da Islândia!!!) numa época que não havia youtube, nem google, a única coisa que guardei foram alguns flashs no clipe na minha mente, foi tão marcante que nunca esqueci. Fui redescobrir o clipe somente muitos anos depois.
      Comecei a perceber como os meios de comunicação e até aquele momento a TV tiveram na minha educação o papel de contato com outras realidades a que você vive (assim como para todas as pessoas que possuem uma televisão imagino), mesmo vivendo a realidade de uma cidade era possível ser provocado com outras visões de mundo(o que mostrou a questão da importância da visibilidade  LBGT na mídia). Acho que gostaria de agradecer imensamente aquele anônimo que pediu o tal clipe naquela noite.   
      Desde então a coisa foi ficando mais clara a passos lentos, passando pelo contato com músicas, filmes (arte!) e principalmente as primeiras paixões na adolescência que foram confusas e avassaladoras, porém foram graças a elas que ser gay foi ficando cada vez mais evidente na minha vida. Foi somente aos 18 anos que comecei a concretizar meus desejos.
       A Universidade representou e representa uma nova fase em minha vida enquanto LGBT, foi nela que tive a oportunidade de começar a estudar questões de gênero e sexualidade, o que em minha opinião permitiu um processo de auto aceitação (processo que continua ao longo do tempo) com muito mais qualidade e força. E além do mais permitiu sentir que era possível viver sua própria sexualidade de maneira mais orgulhosa e sem vergonha (perdão pelo trocadilho rs).
     Ser gay apesar de toda a dificuldade que é viver numa sociedade machista, homofóbica, etc... Direcionou-me a estudos ( que me “abriram a cabeça” em todos os âmbitos da vida) e a militância na Universidade através do nosso coletivo Mandala. Portanto, diria que essa passagem lenta da vergonha ao orgulho me deu muito mais do que uma satisfação pessoal. Ela possibilitou a construção de ações e a perceber de outra maneira seu lugar e papel no mundo. Ser gay me direcionou a própria vida.   










sexta-feira, 28 de novembro de 2014

#Relato 1 - Gênero

O Coletivo Mandala passará a publicar uma série de relatos de pessoas LGBTTQ, serão histórias sobre seus questionamentos de gênero, sexualidade, o processo de assumir-se ou não e questões relacionadas ao preconceito. 
Para hoje o Relato de número 1. 

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    Gênero 

    Por muito tempo fingi namorar um homem. A arte da encenação não é fácil e desde pequena aprendi que as meias verdades duram mais tempo que as mentiras completas. Assim, mudava apenas o que era necessário e isso quase sempre era a flexão do gênero.
Minha namorada passou a ser meu namorado, as horas no telefone eram com ele, o livro era dele, o perfume era dele, e se ele não vinha me visitar era porque morávamos muito longe. Quase tudo verdade. Era incrível como o câmbio de uma única letra quase sempre mudava toda a história.
O imaginário que as pessoas construíram do meu “namorado fantasma” foi sendo fomentada por longos três anos. Para algumas pessoas eu tinha coragem de chamar de canto para uma conversa em particular e confessar meu crime em amar mulheres. Cheguei em um momento que não sabia mais se o erro era a mentira do meu pseudo-homem ou efetivamente o meu relacionamento lésbico, nem em qual ordem deveria me confessar.
Em várias ocasiões eu me confundia. Não sabia (e ainda não faço a menor ideia) de como um homem se barbeia, tampouco entendo de pênis, cabeças e veias. Nas rodas de mulheres sempre dava um jeito de fugir quando o assunto era sexo, não saberia mentir sobre um possível tamanho de pinto. De fato, em um mundo rodeado de machismo no qual é quase proibido a mulher se descobrir, era no mínimo estranho meus conhecimentos sobre vaginas, clitóris e orgasmos femininos.
Com o passar do tempo aprendi a usar palavras que não expressassem gênero, a pessoa com quem namorava não tinha mais nome, era somente meu amor e meu bem. Era somente a pessoa. Me via falando frases sem sentido na tentativa de tirar o gênero. No lugar de falar: “Você está resfriada?” dizia “Você está doente?”; ou “Você está cansada?” para “Foi cansativo?”. Algumas vezes quando não conseguia pensar em modos neutros de utilizar a linguagem tentava falar o gênero de forma tão rápida que quem estivesse do meu lado não percebesse.
 Todo esse dilema moral existia porque era péssima em continuar com a mentira e isso aos poucos foi me afastando das pessoas. Com as amigas da época da escola com seus sorrisos e filhos eu já não fazia mais questão de manter tanto contato e na faculdade me aproximava cada vez mais de quem já sabia. Não me sentia bem ao mentir, ao tentar esconder algo tão bom pra mim. Cada vez que falava “meu namorado” era um soco que dava em mim mesma.
Lembro de uma vez ter tirado uma foto com um amigo para apresentar as pessoas que queriam porquê queriam ver o tal do meu namorado. Tirei a foto, mostrei a uma pessoa e nunca mais tive coragem de fazer isso. E para essa única pessoa que mostrei a tal da foto fiz questão de contar tempos depois.
Já tem dois anos que não preciso mentir sobre a pessoa com quem namoro, hoje o seu nome na agenda do meu celular é realmente o seu nome. No entanto os questionamentos sobre a linguística binária permanecem e até hoje é engraçado/embaraçoso quando alguém pergunta do meu namorado. 


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     E aí, se identificou? Compartilhe com a gente sua história.